Andityas Soares de Moura, representante delegado da Academia IL CONVIVIO no Brasil, poeta e tradutor, Belo Horizonte, Minas Gerais - Brasil, 07 de junho de 2002.

 

Ettore de Conciliis, Murale del Borgo di Dio, Trappeto (Palermo)


 

A poética de Gaetano G. Perlongo e a melancolia: "Tra l'orgasmo e la metempsicosi"

di Andityas Soares de Moura

 

O silêncio é a única atitude digna do poeta no mundo dilacerado em que vivemos. Não lhe cabe cantar a inocência, que já se foi, nem as glórias, que são apenas pó e sombra. “Não se pode falar, há não ser com sobressaltos terríveis.” (verso meu). Assim, vem-nos uma questão, à moda kantiana: como é possível a literatura? E, mais importante, como é possível a poesia? A resposta é simples: cabe ao poeta sacar do infinito a palavra primordial, o instante de febre, o sacro delírio, a compreensão total e instantânea. E é isso o que Gaetano Perlongo faz em sua obra “La licantropia del poeta”. Não é sem razão que o poeta italiano invoca, logo na abertura do livro, o filósofo que é a marca do desespero moderno, em sua in-comunicação: “Questo libro, forse, comprenderà solo colui che già a sua volta abbia pensato i pensieri ivi espressi o, almeno, pensieri simili.”

 

(premessa al “Tractatus logico-philosophicus” di Ludwig Wittgenstein).

 

Poesia criticamente trabalhada, de cores diversas e perfumes variados, o texto de Perlongo jamais é óbvio. As palavras se acumulam em pequenos nichos, como gárgulas que observam a passagem do tempo. Pode-se notar a influência da poesia moderna no verso de Perlongo, que nada por um rio de significâncias sem parar em nenhum momento. As imagens se espalham pelas páginas, em um misto sacrílego do haikai oriental e da poesia minimalista francesa. Confira-se o excelente poema abaixo reproduzido:

 

Richiamo

 

   La luce

attraverso la parete dei sensi

traspira vagiti...

...il figlio della terra

recluso dalle emozioni

manifesta credenze da predatore                        

 

A poesia de Perlongo cumpre um rictus ao mesmo tempo rigoroso e livre. Trata-se de construir pontes entre as palavras. Trazê-las para a superfície, onde são facilmente respiráveis. Mas o processo é doloroso. Há de se reler todas as bibliotecas no mundo, com um fascínio Borgiano.

Tal e qual numa canção, o tema principal se repete com insistência, talvez querendo frisar para o leitor a verdadeira matéria da poesia. Ao propiciar o encontro possível de vozes aparentemente díspares, a poesia de Perlongo constrói uma linguagem muito límpida, muito íntima. Basta conferir o dançante poema intitulado de “Sogni oziosi di maggio”, do qual reproduzimos os versos mais significativos:

 

Ho sognato la mia ancella

danzare sul mare della rapsodia

 

Ho sognato il capitalismo

in necrosi e l’orgasmo dell’anarchia

 

Ho sognato il pegaso

e la nobile cavalleria

 

Ho sognato Giordano Bruno

 

Ho sognato la penombra

della malinconia

 

Ho sognato l’ozio

di Hermann Hesse

 

Ho sognato la morte

i vermi e l’oblio

 

As filiações do poeta aparecem em cada canto, em cada página. A dança do intelecto preconizada por Ezra Pound ressurge transfigurada nos versos que a cada momento obrigam a palavra a ir mais além, a encontrar a verdade por trás da uni-significação que lhes dá substância quotidiana. A poética de Perlongo é múltipla e mutante. Ao mesmo tempo em que reinvindica a ternura contida e eficaz do ultimo verso do já citado “Sogni oziosi di maggio” – sonhei com meu pai – é capaz de antever a desagregação cósmica na feliz metáfora do prazeroso remordimento humano:

 

la carne

si plasma in vibrante preludio

col disordine cosmico...

 

Talvez por isso o título do livro e desse magnífico poema chamado de “La licantropia del poeta”: contínua transformação. Fome de viver. Provação. Dor e alegria na noite esfumaçada. É a semente divina que brilha no corpo do homem-lobo, esquecido pela humanidade, mas ainda assim pronto a reintroduzir o elemento mágico na existência:

 

Petalo vermiglio

 

                             Alla piccola Gaia Cannavò

 

  La purezza delle gote tue

                   di petalo vermiglio 

          e di musicale ocarina

                           infagottano

      il puerperio estro del poeta

 

         São vozes ímpares as que dialogam nos poema de Perlongo: a lembrança da infância transfigurada, a sensação de isolamento fantástico, a solidão, a estranheza do destino do homem, o mistério sem resposta da vida etc. Gaetano Perlongo constrói um discurso extremamente eficaz, onde redireciona todas as forças de sua escrita para a celebração da lembrança, que é, em minha opinião, a matéria primordial dessa bela coletânea. Veja-se o poema abaixo, incrível em sua contenção e rigor imagético:

 

Fiori di campo

 

         A Rosaria Brigida Castelli - 1972/1995

 

  Il vagito del tempo

accarezza la pelle del fiume del vento

 

Il canto del vento

solletica la pelle dei fiori di campo...

ne risveglia la fragranza

portando con sé

            lo sfregio della rimembranza

 

Sim, a lembrança escorre pelas páginas de Perlongo, mas o tema jamais é tratado de maneira banal ou previsível, vez que o poeta armou-se com os melhores apetrechos: a dicção: clara e límpida. O encadear-se de versos: natural. O assunto: etéreo, esvanescência doce, solitária. Um roçar leve de lábios. E sem que o leitor perceba, o poema nasce como animal precioso. E assim a lembrança, pessoal ou coletiva, é reconstruída em um ambiente de intensa reflexão: busca da beleza. Ergo, a lembrança toma o nome de melancolia, esse spleen tão doce que nos nutre, essa matéria informe que representa a essência e a condição sine qua non de criação autêntica no mundo moderno, segundo Walter Benjamin.

Mas não apenas o logos constitui para Perlongo o caminho a ser explorado. O verso livre permite-lhe multiplacadas modulações e o verbo se irmana ao som, ao canto. É fácil encontrar entre os poemas da Licantropia exemplos primorosos de canções rítmicas. Assim, a sonoridade – a música antes de tudo, proclamara Verlaine – é também elemento fundante da viagem de Perlongo. Confira-se abaixo as rimas internas, agudas:

 

Scorgo l’alba 

         e la mia stanca mente tramonta

   e tu

bocciolo dei miei sogni

ricominci a respirare

                l’umido libeccio

 

Outro exemplo da interessante vocalização do poeta é o poema abaixo:

 

Silenzio e Oblio

 

      Silenzio e Oblio

 

canto baritonale dell’universo

 

Io

      figlio tuo sommerso

 

mi disperdo in cenere

             per un tuo verso

 

E mais um:

 

Il chierico errante

 

   Dopo anni di affannose riflessioni

              e vagabondaggi esistenziali

nell’immaginario delle mie credenziali

vidi la vita e le sue ali

in sé

la risacca salmastra dell’utopia

e l’aurora della fantasia

Seminaristi

in bilico tra fede ed ipocrisia

vidi...

il sepolcrale luogo della finzione

e l’impero della mistificazione

Politici

perdere la moralità della direzione

vidi...

compagni di viaggio

e i colori del faggio

Girovaghi

palesare la seduzione del saggio

(...)

 

Trata-se, de uma obra onde não encontramos sonoridades ocasionais, mas a plena inteligência daquilo que Octavio Paz chamou de espírito do poema: o ritmo. As palavras de Perlongo dançam, sem se confrontarem, densificando a significação da idéia que carregam à medida em que fluem como rio indômito. O verbo se enrosca nas frágeis dobras da sensibilidade humana, como no espetacular Orizzonti, poema rigoroso, mínimo, tácito e pungente:

 

    Vola dal nido

           e vivi come dio

 

     nella dissolvenza e nell’oblio

                         

                 vola via

                       mia rondine

 

O desassossego da contemporaneidade – descoberto por Baudelaire, reorganizado por Eliot e imposto por Pound – exprime-se em alguns poemas de Perlongo. Quando a melancolia se dissocia do irreal, do mundo do Deus-Lobo, a massa pesada da vivência quotidiana se impõe, cruel e vazia, lembrando-nos o hino de desesperança composto por Eliot em sua Wast Land. Entretanto, o poeta não se enclausura em sua rede, mas conhece e participa dos dramas universais. A poesia não é esterilidade. É vida. E viver é lutar. O protesto incontido de Perlongo pode ser ouvido em poemas como L’antisociale, Il chierico errante e Badessa burocrazia mas é necessário transcrever o texto abaixo para que possa-se verificar quão sutis são os caminhos do poeta:

 

La globalizzazione

 

    La nave Capitale

carica di globalizzazione

salpa dal porto dell’apatia      

      e l’equipaggio morsicato nell’identità

saluta i sarcofaghi di palazzo

...il cargo va

sfumando i contorni delle onde

         e sfigurando il pelago dalla vergogna

In magna posa

il commodoro ordina di velocizzare il galoppo

                                i motori vagiscono d’ingordigia

carne da macello per pasto...

L’oblò

velato da una guaina di nostalgia

scorge il delirante barlume

del proletariato sottomesso         

e dalla prima classe

le signore incipriate d’ipocrisia

       calcano le scene

delle troie di regime...

...la globalizzazione va

ammainando la vela della vita

in un sottofondo crepuscolare

 

O poeta não se esquece das origens e proporciona-nos imagens de uma beleza edificante: mediterrânea serenidade. É o carpe diem horaciano renovado. O locus amoenus pleno de intensidade. Abaixo, um sensível poema que nos traz à memória a “erótica” de Safo de Lesbos:

 

Luna

 

      Luna

        madre eremita

prendimi e lacrima

        dammi acqua amniotica

...umidità di nettare

Edifica la finestra

           dei miei occhi

 

A poética de Perlongo se afasta da ruptura para buscar uma nova maneira de participar do cosmos. Para ele, a presença humana é apenas mais um dos mistérios da fé, e, como tal, é inacessível em sua completude. O poeta deve desafiar o silêncio a trazer-nos o mel da existência, a ofuscação da qual nos fala Platão:

 

Zenone

 

    Nell’anfiteatro della crisalide

due cormorani volteggiano

 

funambolica carezza

da scialle amniotico

 

e di ruscelli sgorganti

in sovrapposti universi

 

Universi in frammisti riflessi

           e lì

il saggio di Elèa

            dipinge un’azione

                    infinita

                   di cipressi

 

Poesia profundamente culta, que não deixa de ser humana. Versos sofisticados, porém dotados da simplicidade caracterizadora da verdadeira beleza. Um trabalho maduro de um poeta que encontrou sua linguagem pessoal. Isso é La licantropia del poeta, obra que recomendo para todos aqueles que se interessam pelos atuais rumos da poesia, em especial aquela escrita na bela língua dantesca.

 

 

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